Home Contato
 
 

Descobrindo os anjos – uma perspectiva Sufi

Shaykh Hisham Kabbani
(Tradução: Taslim e Revisão: Bashyra)

 

Quando o inferno foi criado,
os corações dos anjos saíram
de seu lugar correspondente.

Quando os seres humanos foram criados,

Esses corações voltaram ao seu lugar.

Este livro traz relatos tradicionais islâmicos sobre anjos, numa linguagem bela e simples que pode ser apreciada por todos. Como diz Shaykh Hisham Kabbani: “os anjos dão esperanças aos crentes”. O mundo angélico de luz é o passado, o presente e o futuro de cada ser humano. A esperança no futuro está profundamente arraigada no conhecimento do passado, o que, por sua vez, só é possível no momento presente. Viver cada momento da melhor maneira é parte da busca de todo buscador espiritual. Os diferentes aspectos do mundo angélico que estão descritos neste livro são um grande presente para todos os interessados na vida do espírito, sejam muçulmanos ou não, e o esforço de Shaykh Hisham será apreciado não só por aqueles que leiam o livro, mas também pelos que, sem lê-lo, recebam esperança dos leitores que narrem estas histórias.

 

Sachiko Murata

MT. Sinai, NY

Agosto, 1995

Ao leitor:

Gentis leitores, lhes saúdo com o cumprimento tradicional utilizado por gente espiritual no mundo todo: a paz esteja convosco.

Estou muito feliz de ver a crescente tomada de consciência entre o público em geral do fenômeno conhecido por “anjos”. Este é um sinal do despertar da crença no vasto mundo invisível ao nosso redor e, também, do despertar da ânsia de ir além dos limites dos nossos sentidos espirituais para poder realizar o inexplorado potencial em cada um de nós.

Certamente os anjos existem. Eles têm um lugar no cosmos entre milhares, incontáveis, servidores de nosso Criador e cumprem um papel especial no plano divino.

Desde o princípio da morada da humanidade neste mundo existiram e existem pessoas entre nós que possuem um dom precioso e extraordinário: a habilidade de penetrar e entender alguns dos mistérios deste universo sutil e trazer de volta para nós outros as pérolas de sua sabedoria e experiência. Esses homens e mulheres são os santos e gente consagrada, conhecida por todas as culturas e civilizações. O coração de cada buscador deseja encontrar-se com um deles.

Eu fui privilegiado e honrado ao extremo, não só por conhecer, senão por acompanhar dois grandes santos da mística tradição islâmica da Ordem Sufi Naqshbandi: Shaykh Abdullah al-Daghestani, do Cáucaso, e Shaykh Muhammad Nazim al-Haqqani, de Chipre, queira Deus santificar suas benditas almas e elevá-los mais e mais alto em conhecimento e sabedoria.

Depois de muitos anos - e passado um rigoroso treinamento -, eles derramaram em meu coração algo de seu imenso conhecimento e sabedoria. É meu desejo sincero ser capaz de relatar algumas destas experiências a vocês, junto com um pequeno exemplo dos magníficos depósitos de sabedoria sobre o mundo angelical que estão contidos na nossa tradição Sufi. Espero que descubram que vale a pena esta aventura e que vocês, caros leitores, possam animar-se a viajar mais além.

Sh. Hisham Kabbani

A Prova de Adam e Eva

“Logo Satã lhes sussurrou o mal, mostrando-lhes as suas escondidas vergonhas, e disse: vosso Senhor lhes proibiu aproximarem-se a essa árvore por medo de que se convertessem em anjos, ou se fizessem imortais” (7:20)

Os habitantes do paraíso são mais honoráveis do que os seres humanos. A sedução de Adam e Eva mostra que eles sabiam disso e que desejavam ser como os anjos. Pois, por eles também serem habitantes do paraíso e saberem que a obediência devia ser totalmente em direção ao seu Senhor, Satã não foi capaz de persuadi-los para que comessem dessa árvore. Seus poderes angélicos eram muito elevados para que ele pudesse cegá-los. Eles resistiram à incitação de Satã para desobedecerem a Deus. Eles experimentaram e saborearam o gosto da vida celestial e não tinham nenhum indício de ansiar algo fora de seu alcance. Quando Satã viu que não podia convencê-los a comer dessa árvore, aproximou-se deles por outro ângulo.

Adam e Eva foram o pai e a mãe da humanidade. Deus mencionou que Ele ensinou a Adam todos os nomes (como mencionado no capítulo da criação de Adam). Estes nomes incluíram a completa posteridade. Adam portava em sua progênie todas as sementes de seus descendentes. Como Satã possuía poder angélico (ele esteve entre os anjos, embora não fosse um anjo), ele conhecia o segredo das sementes encarnadas na progênie de Adam. Assim, penetrou nessa progênie e despertou nessas sementes o desejo de comerem dessa árvore e converterem-se em anjos, mas de uma forma desonesta. Essas sementes moveram o corpo de Adam e Eva para estender suas mãos e comer da árvore, sem a sua vontade. A causa da sua queda da vida celestial à vida terrena foi o resultado do desejo de seus filhos não nascidos.

É impossível que os habitantes do paraíso desobedeçam a Deus, pois portam um poder angélico que os mantém constantemente ocupados com a obediência a Ele. Por isso, não foi nem Adam, nem Eva quem desobedeceu, senão seus filhos dentro deles. Se Adam e Eva tivessem que permanecer no paraíso, não teriam sido desobedientes, mas também não seriam distinguidos. Quando caíram na terra, eles ansiavam profundamente pelo seu lar, como uma pessoa no exílio ou em viagem. Esse anseio é o desejo de ser angélico. Deus aceitou seu profundo desejo. Ele pôs a morte sobre eles como um lugar de prova, para que eles soubessem que a desobediência não é aceita no paraíso. É por isso que a morte, para a gente devota, é o primeiro signo do retorno ao paraíso e da recuperação do próprio poder angélico, para que nunca mais se repita o erro cometido por todos os filhos de Adam em sua progênie.

Foi suficiente sofrimento para toda a humanidade, o de estar desconectada de seu poder angélico por um período de tempo. Tinham que viver na terra e somente através deste poder poderiam alcançar os níveis espirituais que lhes eram destinados no paraíso. Quando Adam e Eva caíram na terra, choraram em prostração ao seu Senhor durante quarenta dias. Eles não choravam por si mesmos, mas em nome de seus filhos, para protegê-los do castigo divino e para diminuir suas dificuldades e sofrimentos nesta terra. Adam e Eva não levantaram suas cabeças da prostração até que Deus lhes falou e disse: “Oh, Adam e Eva, é suficiente! Os perdoei a vós e a vossos filhos, mas destinei a eles uma vida curta nesta terra, com uma delicada mistura de amor e ódio, prazer e dor, paz e guerra, beleza e feiúra, conhecimento e ignorância. Quem quer que encontre o equilíbrio e escolha corretamente viverá uma vida celestial na terra e estará conectado com os poderes angélicos do paraíso. Essa pessoa será uma luz para os seres humanos e os guiará no caminho correto”.

 

 

***