![]()
POEMAS DE AMOR, MORTE E RESSUREIÇÃO (I)
HUSAYN MANSÛR HALLÂDJ
(Tradução de André Sena)
Bismilláh al-Wadud
Yâ Wadud !
Ao entrar numa mesquita de Bagdad, foi interpelado por certo conhecido, e respondeu: "Eu sou Ele...eu sou a Verdade !"
Apaixonado pelo Amorosíssimo, suas palavras o condenaram diante dos literalistas que o acusaram de estar blasfemando; os que apenas enxergam o visível para seus olhos de carne, apavoram-se frente almas apaixonadas.
Husayn Mansûr Hallâdj foi preso, torturado, crucificado e esquartejado.
Ressuscitado pelo seu amor por Deus, continua vivo.
Rios de lágrimas vivificam e testemunham a sua memória.
Aconteceu em 27 de março de 992.
Ramadan 1430 H./ Agosto-Setembro 2009
(A.R.al-Fatá)
1 Eis-me aqui, Eis-me aqui!
Eis-me aqui, eis-me aqui!
Oh, segredo meu e minha confidência!
Eis-me aqui, eis-me aqui!Oh, minha me ta e sentido
Eu Te chamo...! Não! És, Tu quem me chamas a Ti!
Como poderia eu dizer "És Tu",
Se não me houvesses antes sussurrado, "Sou Eu"?
Oh, Essência da essência do meu existir!
Oh, extinção do meu desejo!
Tu, minha locução, balbuciado e balbúcie!
Oh, Todo de meu todo! Meu ouvido e minha vista!
Minha totalidade, minha composição e partes!
Oh, Todo de meu todo!
O Tudo de um tudo é um enigma que escurece
Quando desejo expressá-lo.
Oh, Tu, a quem meu espírito, moribundo de êxtase,
Havia ascendido,
Te convertes agora, durante minha aflição, em seu guardião!
Lamento e choro, longe de minha pátria
Por obediência,
E meus amigos se lamentam comigo.
Me aproximo, meu medo me afasta, mas no fundo de minhas entranhas lateja um desejo, a fazer-me tremer.
Que farei, meu Senhor, com este Amante que me tem fascinado?
Minha doença esgotou meus médicos.
Eles me dizem: "Cura-te com ele com ele!"
Mas eu lhes digo:
"É possível que nos curemos de um mal com esse mesmo mal?"
Meu amor por meu Senhor PE arruinou e me consumiu,
Como poderia queixar-me a meu Senhor de meu Senhor?
Sem dúvida O sinto e meu coração O conhece,
Mas nada, exceto o piscar de meus olhos poderia expressá-lo.
Ah, por culpa de meu espírito, desgraçado é meu espírito!
Sou eu mesmo a origem de minha própria desgraça!
Como os dedos de um náufrago, surgindo solitários no vasto mar, a pedir ajuda.
Ninguém, exceto Ele, que meteu-se em meu coração,
Sabe o que me sucede.
Ele conhece o bem e o mal que me afetam.
Dele depende que eu morra ou viva.
Oh suprema exigência e esperança!
Meu hóspede!
Oh, vida de meu espírito!
Minha fé e minha parte neste mundo!
Diga-me: "Expiei tuas faltas".
Oh, meu ouvido e minha vista!
Afastei-me por demais de Ti!
Até onde permitirás que assim seja?
Embora, no invisível, Te oculter de meus dois olhos,
Meu coração observa ao longe o Teu amanhecer.
2. Atravessei um oceano
Para a ciência há vocações. Para a fé, uma progressão.
Tanto para a ciência como para os santos
O mais importante são as experiências.
É portanto a ciência duas ciências:
A que se rejeita e a que se aceita.
O oceano, dois mares:
Um navegável, o outro perigoso.
O tempo, dois dias:
Um nefasto, o outro favorável.
O gênero humano, dois destinos:
Um pleno, o outro despojado.
Guarda pois em teu coração
O que te diz uma testemunha honesta,
E observa com atenção, graças a teu entendimento,
Já que o discernimento é um dom.
Quanto a mim, escalei até o cimo
Sem que fosse necessário por os pés na montanha
Subida que reserva a todos, menos a mim, incontáveis perigos.
Atravessei um oceano
Sem que fosse necessário tocarem-no meus pés
É meu espírito quem o atravessou
É meu espírito quem o saboreou
Seu fundo de gravas e pérolas é inacessível às nossas mãos
Mas apenas uma tomada de consciência basta para possuí-lo
Nele serenei sem abrir a boca,
Todavia trata-se de uma água familiar para as bocas que já beberam.
Meu espírito, desde o princípio teve sede
Quando meu corpo nela se molhou
Antes mesmo de ter sido formado.
Eu, órfão, tenho um Pai a quem recorrer
Meu coração, enquanto durar minha vida, sofrerá por não poder vê-Lo
Cego, sou vidente.
Simples de espírito, sou sagaz.
Mas se me prendo a estes adjetivos
Poderei acabar sendo mal interpretado.
Os bravos sabem o que eu sei,
Já que são meus companheiros.
Pois aquele que é virtuoso busca companheiros.
Suas almas foram apresentadas umas as outras
Na origem da humanidade.
Depois luziram feito sóis enquanto o tempo,
Como uma senda,
Submergia á sombra da montanha.
3. Oh Visão de Onde Parte o Meu Olhar
Oh visão de onde parte meu olhar!
Lugar onde introduz-se minha inspiração!
Conjunto de tudo
Mais querido do que tudo ou parte de mim mesmo!
Desejam que tu sejas compassivo com aquele
Cujo coração está preso em duas garras de pássaro.
Perdido fora de si
Como um selvagem que foge de um deserto ao outro,
A vagar sem saber por onde,
Suas idéias erram como o resplendor que traça um relâmpago,
Ou como o leve e tênue presságio que se lança
Na sombra do futuro e no fluir do oceano do pensamento,
Onde é arrastado pela graça da onipotência divina.
4. Etapas na Ascese Mística
Primeiro o recolhimento, depois o silêncio.
Mas tarde a afasia e o conhecimento
Por último, a nudez.
Primeiro a argila, depois o fogo.
Mais tarde a claridade e o frio,
Depois a sombra
Por último, o sol.
Primeiro as rochas depois, frestras
Mais tarde o deserto e o rio,
Depois a crescente
Por último, a seca.
E primeiro vem a embriaguez
Depois a desilusão
Mais tarde o desejo de aproximação,
Depois a união,
Por último, a consolidação.
Primeiro a angústia, depois a lembrança.
Mais tarde a atração e a conformação,
Depois a aparição divina
Por último, a investidura.
Têm acesso a essas frases apenas aqueles que atribuem a este mundo valor inferior de uma simples moeda.
Há vozes detrás da porta,
Mas sabe-se que as conversas dos homens
Quando deles nos aproximamos
Convertem-se em meros murmúrios
A última idéia apresentada ao fiel, quando alcançada a barreira é:
"Meu prêmio" e "meu eu"
Posto que as criaturas são escravas de suas inclinações
E a verdade de Deus quando descoberta,
É que Ele é Santo.
5. Sarcasmos referentes às doutrinas esotéricas
Aquele que recebeu confidências,
Publicando depois, tudo que outrora mantiveram
Em segredo
Sem continuar indo a eles,
É um caloteiro.
Que desperdício seria, se as almas anunciassem tudo
O que sabem em segredo
E tudo o que comoveu sua razão!
Quando alguém viola o segredo de seu mestre e senhor
Nada mais lhe é confiado pelo resto de sua vida.
É punido por causa de sua negligência
É banido e confinado ao isolamento, longe dos seus,
Todos se afastam dele, sendo mal visto até por seus
Vizinhos,
Se for pego exumando segredos.
Aquele a quem um segredo foi revelado e o divulga como eu,
É visto como um desequilibrado,
Eles, os iniciados, feitos para a disciplina arcana,
Não suportam a falta de pudor
Nem os indiscretos em suas reuniões
Não apreciam o descotirnar do véu que os cobre
E por serem tão ciumentos com seus próprios mistérios,
Não admitem convidados!
Sua glória está longe de vós e vossos atos!
Mostrai-lhes pois, doravante e sempre, reverência
Em sua casa.
6. A queda após o Êxtase
Eu te grito: luto pelas almas cujo testemunho
Temporal (eu) vai através do além para unir-se ao
Testemunho eterno!
Eu te grito: luto pelos corações,
Tão amiúde orvalhados em vão pelas nuvens da Revelação,
Onde a sabedoria se amontoa como o oceano!
Eu te grito: luto pela palavra de Deus!
Faz tanto tempo que morremos
E sua lembrança não se manifesta mais em nossa imaginação.
Eu te grito: luto pelas demonstrações dos inspirados,
Diante dos quais cedem
todos os discursos de oradores dialéticos
Eu te grito: luto pelas alusões insinuadas
Pelas inteligências.
Nada senão ruínas subsiste de todas elas nos livros!
Eu te grito: luto em nome do Teu amor!
Pelas virtudes dos que tiveram suas carcaças
Moldadas para obedecer!
Todos eles já se foram, atravessaram o deserto sem deixar marcas
Nem poços nem pegadas.
Passaram como a tribo de ‘Ad, e como a cidade
De Iram, por eles tão pranteada.
Atrás dele uma multidão abandonada divaga,
Tateando mais cega que os animais
Mais cega ainda que uma manada de camelos
7. Vôo espiritual
Meu olhar, olhar de ciência,
Libertou o segredo puro de minha meditação
Um resplendor, mais tênue que qualquer concepção compreensível
Brotou em minha consciência
Submergi ante a onde oceânica de minha reflexão,
Deslizando como uma flecha
Meu coração revolto emplumado de desejo,
Montado firme sobre as asas do meu intento,
Ascendendo rumo Aquele que,
Ao me indagarem,
Oculto com meus enigmas escondendo Seu nome.
Ao fim do vôo,
Ultrapassado todos os limites,
Passeei pelas frestras da proximidade,
E olhando então um espelho d’água,
Não pude ver mais que alguns traços do meu rosto.
Fui rumo a Ele, afim de apresentar minha submissão
Arrastado pela força de minha capitulação.
Que marca já havia gravado o Seu amor em meu
Coração, com o ferro ardente do desejo!
A intuição de minha personalidade me abandonou.
Estive tão perto d’Ele que esqueci meu nome.
8. Criador e Criatura
De agora em diante
Não há mais explicações intermediárias entre mim e Deus.
Nem tão pouco demonstrações e milagres para convencer-me.
Eis a explicação
Que transfigura os fogos divinos que flamejam em mim
A seduzir-me qual pérola irrecusável!
A prova é Sua, d’Ele para Si.
Ele é o testemunho do próprio real
Formulando-se em uma Revelação.
A prova é Sua, d’Ele para Si.
Em verdade é Ele a quem encontramos na prova.
Como uma ciência em processo de demonstração
Que não se deduza mais o Criador de Sua criatura
Vós todos,
Efêmeros, capazes de testemunhar apenas os tempos!
Esta é minha existência
Minha confissão
E minha convicção.
Esta é a unificação divina de minha
Profissão de fé e crença
Assim manifestam-se aqueles
Que Ele isola em Si
Mesmo dotando-os de sabedoria no seu interior e em público.
Tal é a consumação daqueles que Ele extasia,
Filhos do mesmo Pai
Meus companheiros, meus amigos.
9. Ele e Seu desejo
O desejo,
Na preeternidade das preeternidades
É o absoluto.
Nele apareceu para Ele, d’Ele.
O desejo não é efêmero,
Posto que é o atributo entre os atributos d’Aquele que
Ele mata e ressuscita.
Seus atributos são apenas Seus, Nele.
Não são algo criado.
O criador de algo é quem projeta suas coisas
Quando Ele originou o começo
Seu desejo projetou um atributo no que começava,
E o desejo fez com que Seu resplendor se derramasse
Sobre Ele.
O Lam se compôs unindo-se ao Alif.
Ambos predestinaram assim o "Uno".
A partir da perspectiva da diferença, são dois.
Contudo a partir de um referencial de unidade
Sua única diferença é aquela entre
O servidor e seu Senhor.
Tais são as realidades.
O fogo do desejo as inflama no real,
Estejam próximas ou afastadas.
Diminui, perdem suas forças,
Depois tornam-se perdidas de amor
E os fortes, na medida em que se enamoram
Se fazem humildes.
10. Tu és meu Desejo
Sinto Tua falta e de mim mesmo,
Oh promessa de meu desejo!
Aproximara-me tanto de Ti que cheguei a acreditar ser meu o Teu "sou eu".
Enetão, no Teu êxtase Te explicaste tanto,
Que em ti me
Dispensaste de mim mesmo.
Oh! Minha felicidade nesta vida!
Oh! Meu descanso e minha sepultura!
Exceto Tu, já não há para mim nenhuma alegria,
Já que és meu medo e minha confiança.
Nos jardins de Teus emblemas estão incluídas todas as
Ciências e se ainda tenho algum desejo,
Tu és todo esse desejo!
11. Em minha morte está minha vida
Em minha morte está minha vida
Matem-me, meus fiéis camaradas,
Pois em minha morte está minha vida!
Minha morte é sobreviver e minha vida, morrer!
Sinto que a abolição de meu ser
É o presente mais nobre que podem me oferecer
E minha sobrevivência, tal e como ora sou,
Seria o pior dos tormentos.
Minha vida, entre as ruínas derrubadas
Repudiou minha alma.
Matem-me, pois, e queimem esses ossos perecidos!
Então, quando passarem perto dos meus restos
Entre as tumbas abandonadas
Encontrarão os segredos de meu amigo,
Nas pregas das almas viventes.
Fui um patriarca de alta estirpe
Tornei-me depois uma criança mimada
Por entre o encanto das babás
Ao mesmo tempo que seguia permanecendo
Sob a louça de uma tumba
Em terras salinas.
Minha mãe deu a luz a seu pai
Eis uma de minhas maravilhas!
Minhas filhas, que engendrei eu mesmo
Converteram-se em minhas irmãs
Sem que isto tenha acontecido
No sentido do tempo
E sem que houvesse adultério
Juntem pois, minhas partes todas, reuni-as
Os pedaços de corpos cristalinos,
De ar, fogo e de água pura
Depositem tudo em uma terra seca
Reguem-na depois, com riachos cantarinos,
Deixem que as servas vertam seus cântaros
E uma planta perfeita germinará em sete dias.
12. Sobre o Mundo Invisível
Ah! quantas vezes escapamos das formas visíveis
Graças a uma simples gota
Brilhante como a lua!
Gota de sézamo, de azeite de sézamo
Com caracteres inscritos
E com jasmim ungido em nossa frente!
Vós caminhais,
Nós caminhamos
E percebemos vossas silhuetas,
Mas vós não nos vedes
13. Que terra é esta tão vazia de Ti?
Que terra é esta tão vazia de Ti
Para que eles se enxerguem buscando-Te nos céus?
E tu vês que olham para Ti aparentemente
Mas não Te percebem na Sua cegueira.
14. Até quando afundando-te no mar dos pecados...
Até quando, afundando no mar dos pecados,
Lutarás contra Aquele que te vê
Sem que tu O vejas?
E assinalei-te um caminho:
O da continência e piedade,
Mas teus atos são arrastados por tuas inclinações
Tu, que passas as noites trancado e só com as tuas faltas!
O olho de Deus é uma testemunha que te observa!
Desejas obter o perdão d’Aquele a quem ofendes,
Ao mesmo tempo em que não tentas agradá-Lo?
Pede perdão antes de tua morte,
Antes do dia em que o servidor
Marche ao encontro do que suas duas mãos ganharam.
Como podes ficar satisfeito com tuas quedas
E teus pecados, e esquecê-Lo a Ele, o Único?
15. No meu coração havia muitos desejos...
No meu coração havia muitos desejos
Mas todos se foram desde que meus olhos Te viram.
E os que eu envidava agora me envidam a mim,
Mestre das criaturas, já que agora Tu és o meu Mestre.
Amigos e inimigos
Me condenaram por Tua causa
E porque eles conhecem a minha angústia
Deixei aos demais este mundo presente e sua devoção
Para entregar-me somente a Ti
Minha devoção e meu mundo presentes.
***